• Desbravando o mundo das coleções das instituições de memória na Wikimedia Commons

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A Wikimedia Commons é uma plataforma extremamente potente e mundialmente utilizada para compartilhamento de conteúdo. Pela própria descrição da página principal o projeto se define como uma “mediateca com 47.605.225 arquivos livres em que qualquer um pode contribuir”.

Dado meu grande interesse pessoal por conta das pesquisas que tenho feito no universo dos acervos em rede e, mais especificamente, de como se dá no Brasil, venho procurando a algumas semanas compreender como a plataforma funciona e como posso encontrar o conteúdo específico das instituições de memória brasileiras (arquivos, bibliotecas e museus). Os primeiros passos foram bastante confusos e me perdi várias vezes tentando navegar no sistema de categorias da plataforma. Há uma quantidade enorme de categorias e elas são criadas pelos usuários nos processos de discussão promovidos pela governança wiki, sendo que existem várias recomendações apontadas acima de esse trabalho de categorização deve acontecer. Ou seja, não se pode dizer que é um exemplo simples de folksonomia, dado que há mediação e conversação em torno dos resultados categorizados pelos usuários, mas também não se pode dizer que é um sistema controlado e que possui uma modelagem de domínio explícita. É algo muito potente, mas para um usuário chegando pelas primeiras vezes é um tanto caótico compreender como se movimentar por ali sem ter um interesse de conteúdo de um específico, mas querendo compreender como os acervos de cultura se organizam por ali.

Encontrei alguns projetos brasileiros que valem muito a pena destacar. O primeiro foi o projeto ligado ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Além de possuir muita informação sobre o projeto dá uma boa base de outros tipos de ações como essas poderiam acontecer em outras importantes instituições de cultura no país. Outro que vale destacar é o projeto do Arquivo Nacional.

Mas, como encontrar todos esses projetos de uma vez só? De que maneira poderiam eles estar categorizados de tal forma que fosse possível encontrar uma listagem única dessas ações? Rodei de muitas formas a plataforma, procurando identificar algum padrão que me ajudasse a encontrar essas formas de organização. A categoria mais abrangente que consegui localizar foi a categoria “Collections in Brazil“.  A página já apresentava subcategorias para museus e bibliotecas, mas não mencionava nada a respeito dos arquivos. Acabei editando a página e criando uma nova categoria específica para os Arquivos brasileiros, de forma a juntar ali a importante iniciativa do Arquivo Nacional.

A categoria de coleções do Brasil abre para um subconjunto de 5 categorias, que se desdobram em várias outras subcategorias. Um primeiro problema que tive foi tentar entender como essa estrutura de subcategorias é organizada em árvore. Pesquisando pela própria Wikimedia encontrei uma ferramenta da plataforma que permite visualizar uma categoria num formato de árvore e consegui compreender como essa categoria genérica funcionava em relação aos acervos brasileiros. Navegando pela árvore o número de subcategorias é enorme e uma complexa estrutura organizacional se revela. De maneira a tentar compreender o tamanho dos acervos e com o que eu estava lidando exatamente, fui em busca de uma outra ferramenta que me ajudasse a ter uma noção quantitativa dos arquivos ali disponíveis. Encontrei a ferramenta GLAMorgan que, uma vez que você parametrize a ferramenta de busca com a categoria que quer analisar, ela calcula não apenas quantos arquivos estão organizados nas subcategorias, mas quantas páginas utilizam esses arquivos, quantas vezes foram visualizados em um período de tempo específico e quais as páginas da Wikipedia que consomem esses conteúdos. Impressionante os resultados que ali encontrei. Mostro abaixo um breve resumo que vale a pena olhar mais atentamente na própria ferramenta:

  • 13,190 files in category tree.
  • 5,102 files were viewed, out of 5,575 used.
  • 10,098 pages on 184 wikis use those files.
  • 41,802,801 file views in 2018-05.

Mais de 41 milhões de visualizações de arquivos (mais de 13.000)!!! Mais de 10.000 páginas de 184 wikis ao redor do mundo. É um resultado em termos de internacionalização e uso de objetos digitais relacionados a cultura brasileira impressionante. Para além disso, apesar de 13.000 objetos ser um número considerável, é extremamente baixo considerando o potencial cultural dos acervos brasileiros. Não apenas o número poderia ser muito maior, como poderíamos por meio dessa plataforma incentivar de forma determinante o uso e reuso da cultura brasileira em vários contextos de produção de conhecimento público e livre.

O objeto mais visualizado foi a foto do estádio do Maracanã da Copa do Mundo de 1950. Mais de 1 milhão de vezes apenas essa imagem. Sem dúvida, o contexto do acontecimento da copa do mundo favorece essa visualização, mas mostra o potencial de inserção social da produção brasileira em inúmeros contextos.

Há vários aspectos que essa experiência de navegação e compreensão de como o sistema se organiza que me chamam a atenção:

  • a plataforma não é voltada para uma fácil visualização dos arquivos desses acervos e nem pela navegação dos metadados. Ela é feita para fornecer conteúdo a produção de páginas da Wikipedia, ou seja, para um acesso mais amigável e intuitivo desses acervos valeria a pena pensar em outras interfaces de navegação e agregação de conteúdo.
  • o grande potencial é o tipo de reuso qualificado que a plataforma oferece, facilitando com que usuários da Wikipedia mundo afora possam consumir essas imagens e ilustrar suas páginas, ampliando o potencial de contextualização dos objetos digitais e gerando resultados em termos de visualização muito expressivos, como os que mostrei acima;
  • me parece muito potente a ideia de enviarmos tudo o que temos sistematizado e coletado nos projetos Tainacan para a Wikimedia Commons e vice-versa, coletar tudo o que tem sido disponibilizado ali para ofertar uma ferramenta de busca integrada mais amigável. Esse jogo entre plataformas me parece complementar e muito favorável a uma ecologia livre da informação cultural.

 

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